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16 outubro 2009

Saborosos Sonhos da Padaria

Os roncos dos motores ecoavam forte na minha cabeça. Durante a corrida, visitando o box de um velho amigo que acompanhava apaixonadamente a disputa do filho, eu assistia ao desempenho dos pilotos e suas máquinas, uma relação quase simbiótica para a vitória. Minha irmã ao meu lado tapava os ouvidos a cada passada dos autos. Duas moças da minha idade entraram sorrindo e de óculos escuros, bem vestidas, com o frescor que apenas aqueles vinte e poucos anos traziam. Ambas traziam um brilho loiro nos cabelos, que refletiam o sol daquele dia no autódromo. Minha irmã conhecia uma delas, se abraçaram, riram e foram colocar os assuntos em dia; a outra se manteve ali, sozinha, com um misto de costume e estranheza. Cheguei perto e disse: "Ainda não sei seu nome" e ela: "Natalia". Sorri, e comentei que não iria esquecer, minha irmã que acabara de sair também assim se chamava. Perguntei: "E você? Espera por alguém?". Ela sorriu e respondeu de maneira simples: "Sim, meu marido". Surpresa! Ele já voltara, e da pista! O filho do meu amigo a abraçou ternamente e a beijou. Após algum tempo minha irmã retorna com a amiga; ficamos os 4 conversando... O tempo passa, e nós esperando o fim da arrumação dos boxes até que nos cansamos e sugiro sairmos dali. O imponente piloto ficaria para últimos acertos. Pegamos o carro, andamos um tanto, estacionamos e passamos a seguir pelas calçadas do entardecer, já frias com a mudança do tempo. Papos sem propósito nos envolvem, até que sinto o cheiro quente de pão novo e alcanço com os olhos uma padaria clássica, aos moldes das grandes confeitarias de outrora. O vapor emanado pela pequena loja de balcão alto, repleta de pessoas buscando um pouco de calor recém-tirado do forno e as luzes amarelas faziam uma cena de filme; quase um retrato da felicidade presente nas pequenas, antigas e belas coisas da vida. Aquele cheiro na rua... pão quente! E mais: açucarado... Pelo jeito acabou de sair o pão-doce! Segurei a nova Natália por uma das mãos e falei "Vem comigo!". Minha irmã e a amiga também vieram e se encantaram com a cena vista por dentro. Pessoas com grandes casacos tomavam chocolate quente sorrindo como crianças. Os pães rodavam o salão com seus odores ternos de inverno. Padeiros e boleiras sorridentes atendiam no balcão como quem quisesse trazer felicidade às pessoas que buscavam um calor para suas almas naquele frio fim de tarde. Alcancei um dos pães, provei, fascinado pelo sabor da infância e servi às meninas. Não só esse, outro. E outro. Pães doces diferentes, de diversos recheios e coberturas. O brilho presente naqueles olhos claros sob os finos cabelos loiros me nutria tanto quanto o pão quente e doce que me tocava os lábios. Observava a tudo desejando que aquilo durasse por muito tempo ainda...
Meu celular tocou. Meus olhos se abriram com dificuldade. Do outro lado, Roberta Karen me questionava o motivo da ligação mais cedo. Respondi com a voz rouca que só o sono nos provê. Tentava colocar os pensamentos em ordem... Respirei fundo, saquei os óculos da lateral da cama, os coloquei sobre os olhos e respondi à amiga que me buscava no telefone durante o sono da tarde... Da cena ficaram o calor, os cheiros, os brilhos e os sorrisos... Sorri de maneira sem graça e me levantei... já era quase hora de buscar minha sobrinha no colégio...
Caro leitor, não se furte a viver o que aparentemente não é possível. Muitas vezes, momentos virtuais são tão prazerosos quanto os reais...
A felicidade é sempre verdadeira, seja decorrente do que se passa ou do que poderia se passar... Pense nisso, Reflita Também...

28 julho 2009

Combinatória (n!)

Não é muito original, dado que acredito estar entre milhões que pensam de mesma maneira, mas vejo o ponto da vida de uma pessoa a que esta chegou como o resultado de uma série de escolhas prévias. escolhas tão numerosas, em infinitas situações, que tornam o presente fruto do produto delas. Seja "sim ou não", "azul, amarelo ou vermelho", "praia ou montanha", "livro, filme ou música", poderíamos estar em qualquer outro lugar, caso a outra opção tivesse sido escolhida.
Bem, exemplifico com um caso fictício:

João amou Maria no momento que a viu. Apaixonara-se pelo sorriso abrangente e ao mesmo tempo contido. Dividiam a mesma turma; tornaram-se amigos. Divertiam-se nos momentos juntos, como se um completasse a cena proposta pelo outro. Alcançaram o grau de complementariedade em que se ó possível antever o que o outro dirá, ou o que o primeiro pensa. João sentia necessidade por mais. Já não queria apenas ter Maria como amiga. Sabia que era capaz de se reapaixonar por ela a cada dia; estava certo de que poderia construir tudo a seu lado. "Juntos podemos tudo". Precisava de uma chance. Prestaria o exame de direção em breve, e era o que precisava. Antes mesmo de fazê-lo em férias, convidou sutilmente Maria para sair. De maneira indireta, superficial, sem por os carros na frente dos bois. Praia seria o ambiente ideal para declarar-se. Com sol a pino, ondas molhando-lhes os pés, servindo água de coco à moça. Fez a prova, passou, pegou o carro e, num dia claro como nenhum outro, de cores quentes e vibrantes, buscou Maria em casa. Tiveram juntos um dia perfeito. Só ele naquele momento podia ver que o sorriso radiante dela se fundia com o cenário, de maneira tão perfeita que a beleza daquela mulher não poderia ser mais natural. Declarou-se. Já segurava a mão de Maria, quando deixou-se levar pelo coração em franca taquicardia e a beijou. A moça retribuiu, com igual paixão. Amor. Recíproco e imutável. Namoraram, viveram, partilharam e decidiram. Noivaram, amaram mais e casaram. Trabalharam, cresceram e envelheceram. Juntos. Fortes. Únicos. Ele sabendo que tivera a mulher de sua vida, e ela amando o homem que fora feito pra si.
Mas a vida é feita de combinações. E pra que isso ocorresse, as escolhas pareadas de tal forma que predispusessem isso, aos 2, somavam uma probabilidade de 1 para 10²³. Nessa situação, João não deixou de passar na prova de direção e ambos tiveram um verão de sol todos os dias. Os 2 não deixaram de se falar pelo acaso, Maria não conheceu melhor Antônio nem foi a uma pizzaria com ele. João e Maria não separaram seus grupos, nem deixaram de se esbarrar em sala e muito menos fingiam não sentir o perfume um do outro quando dividiam a mesma bancada, lado a lado. Os 2 sorrisos não se extinguiram e os olhares não deixaram de ser trocados. Os lábios não se furtaram de sussurrar elogios e de sorrir simplesmente por ver o outro...
A vida é feita de combinações... e nessa combinatória as chances são muitas, nem sempre favoráveis ou presumíveis...
Concorda leitor? Reflita também...

10 janeiro 2009

Lagos Translúcidos nas calçadas da Cinelândia

A vida não tem esquinas, já disseram certa vez; mas a Cinelândia com certeza tem. E foi nessa exata esquina que passei por uma situação única na quarta-feira última.
Voltava eu de uma reunião no Centro com uma professora minha, e já tomava o caminho do metrô, quando fui convidado pela mesma para tomar um suco no espaço vizinho ao Odeon. Andávamos pela calçada larga, tomada de gente, mas tranquila, conversando sobre trabalho de uma maneira leve, que só o típico verão do Rio de Janeiro permite.
Não sei se por falta de hábito com a paisagem peculiar do centro da cidade ou por receio de andar no meio de tantas pessoas, eu prestava atenção em tudo ao entorno. Desde as pedras caprichosamente colocadas (e igualmente faltosas) formando o chão em mosaico até as esparças árvores que fazem falta no meio de tanto cinza da metrópole.
Esforçando-me para não tropeçar na infinidade de coisas que nos cruzam o caminho nesses lugares, desviei, sem muito propósito, quase que involuntariamente, de duas pessoas que cuidavam de uma banquinha no chão. Um rapaz à direita, agachado, e uma moça à esquerda, sentada sobre uma canga, que servia como base para as bijuterias que estavam à mostra.
O rapaz, de costas para mim, exibia algo para a moça, que observava com atenção.
Sem que eu pudesse segurar, no meu inconsciente veio o pensamento: "ah, os hippies em todo lugar... ainda existe gente assim!?", mesmo enquanto eu conversava sobre algo totalmente diferente, demonstrando a pluricapacidade da mente humana. Da preconceituosa mente humana. As roupas batidas, o lenço no cabelo da jovem, os dreds no do rapaz e o comércio de trabalho manual automaticamente me remeteram a isso. E só o que eu pensava no momento era como poderia haver pessoas que se furtassem de uma vida "regrada" e que pudessem se tornar alheias a uma formação necessária para o mundo de hoje...
Ao me aproximar, a jovem levantou o rosto ainda sorrindo, desviando o olhar que encarava o rapaz, ainda de costas pra mim, e repousou sobre os meus olhos os dela. Os olhos mais verdes e vivos que eu já pude observar em toda a minha vida. Contrastavam com o delinear negro nas pálpebras e o branco muito límpido da pele. Me olhou com uma força não instintiva, mas intrínseca àquelas translúcidas íris, que mais pareciam dois grandes lagos nas calçadas da Cinelândia. Eram tão abrangentes, tão expansivos, que não me admiraria que fossem capazes de conter toda a imensidão de coisas que os cercava no momento. Me senti invadido, exposto. Parecia que aqueles olhos, ao tocarem os meus, poderiam ver minh'alma. Não desviei o olhar, como de costume ocorre quando olhares se tocam nas ruas, shoppings ou supermercados. Meu pensamento, agora, era puro. Se purificara, na verdade. De nada me envergonharia pensar que eu precisasse omitir daquele Oráculo à minha frente.
Desacelerei o passo, pedi que os segundos se extendessem. Deixei que por mais tempo ela repousasse a esperança sobre mim, pobre e descrente pedestre da selva de pedra. Senti como se me afogasse num lago profundo, mas sem angústia... Sentia conforto, na verdade.
O caminhar deu fim ao elo, por mais que eu não quisesse. Segui o caminho, voltei à realidade, acabou.
Por fim me perguntei quem era eu pra questionar a maneira como eles levavam a vida... Se convicções são prisões, e estou preso à minha, não poderiam eles estarem certos e eu, errado?
A vida é curta, o mundo nos apressa e a velocidade transforma de maneira inescrupulosa...

Vestiam roupas surradas, muito simples, mas era possível sentir a felicidade ali...


***Espero que tenha gostado leitor... não se esqueça: Reflita Também!

06 novembro 2008

Resposta a "O certo e o errado "

Semanas se passaram... Meses correram desde então... mas o artesão, já de volta ao seu vilarejo, sofria com o questionamento em sua mente, que o fazia sentir como se houvesse decorrido apenas algumas horas desde aquele fatídico momento. Já havia retornado a seu ofício, trabalhado madeira, metal, fogo, terra, água... mas o cristal não saía de seu pensamento. Os cristais. Ambos. Irmãos. Semelhantes e tão diferentes.
Lá fora um rapaz gritava: "Nova feira de materiais na cidade vizinha! Venham! Venham!"
Rapidamente o artesão vestiu suas roupas de viagem, alcançou a algibeira e lançou-se em direção ao povoado próximo. Chegando lá, tomou o rumo imediato de onde encontrara previamente o mercador viajante, e lá estava, novamente o senhor que já conhecia. Mostrava-se triste. Ao ser questionado, revelara que desistira da vida de mercador, e que sua ganância e seu desejo de ter tudo para si haviam destruído sua vida.
Lembrou-se de imediato do artesão e sem pensar 2 vezes pôs sobre a mesa da barraca os 2 cristais. Disse-lhe: "Escolha rapaz, podes levar 1 deles!". O artesão sentiu novamente o aperto no peito de meses atrás. Mas desta vez, pode observar ambos os cristais sem pressa. O primeiro ele já conhecia bem; tinha o mesmo ar altivo, mas estava empoeirado agora, perdera um pouco de seu brilho. Ainda era belo e fino, mas tinha sua beleza afrontada pelo cristal irmão ao lado. Olhou o segundo, o que lhe havia sido oferecido como alternativa da primeira vez. Espantou-se por não tê-lo percebido as características antes. A cor não era ligeiramente diferente, à luz do dia, intensificava-se e mostrava-se de um verde lindíssimo, que mudava seu tom de acordo com o ângulo que lhe era imposto ao sol. Este, ao cruzá-lo, deixava raias esperançosas sobre a bancada. O artesão teve certeza que estes feixes poderiam iluminar toda uma casa e assim, a dúvida que lhe era aguda por falta de informações, se tornou crônica por excesso destas. Não mais pensava, apenas sorria ao ver belezas iguais e díspares ao mesmo tempo. Não há certo. Não há errado. A escolha não existe de verdade...

Pense nisso leitor. Reflita também...

16 julho 2008

O certo e o errado

Contam que numa antiga vila cravada no meio de uma cadeia de montanhas, um jovem artesão vivia cheio de trabalho e pouco parava para pensar em si mesmo. Estava sempre a servir os outros, e parar de trabalhar lhe parecia um desrespeito com o grande número de apreciadores de sua arte, que adornava desde casas simples na vila quanto palácios fora dos limites dos olhos locais. Um dia, entretanto, procurando novos materiais com que pudesse trabalhar, o artesão, passeando por uma feira numa outra cidade, descobriu um tipo de cristal que nunca havia visto... Já muito haviam lhe falado sobre a matéria-prima, mas só vendo por si mesmo o artesão pôde perceber seu valor. Estava deslumbrado, ansioso por ter pra si aquela maravilha e poder não só moldá-la mas também admirar mesmo a beleza bruta do translúcido cristal.
O dono do vítreo material, um mercador viajante, porém, recusou-se a vender o material. Ao perceber o interesse do artesão, cujos olhos brilhavam frente ao cristal, percebeu o valor deste e disse que nunca fora de seu interesse vender, que desejava apenas fazer uma exposição. E chamando a atenção do artesão, ofereceu-lhe um outro cristal. Não pensem que este era de menor qualidade! Era tão fino e tão belo quanto o primeiro, de cor ligeiramente diferente, e também seria um primor em ser trabalhado, mas deste o artesão nada sabia, e tivera pouco tempo de avaliar, pois de pronto, o mercador escondeu ambos os cristais. O jovem artesão pensou por um momento, e por mais um, e outro... e assim perdeu dias tentando resolver o problema. Aceitaria o segundo cristal, belo como o primeiro, de negociação mais fácil mas sem conhecimento prévio, passando por cima de seu primeiro ímpeto, ou esperaria o invejoso mercador cansar-se do primeiro cristal, liberando-o para a venda, quem sabe depois de demasiado e desgastante tempo, o qual poderia ter trabalhado perfeitamente com o segundo?

Adianto, caro leitor, que não há resposta para tal questão. Um dado importante e, diria eu, até intrigante na vivência humana é que não é tudo que se resume à máxima do certo e do errado.
Como fazer a melhor das escolhas? Não se sabe... ainda mais quando o padrão de correto e incorreto não se aplica... E acredite, esta situação é muito mais freqüente do que imaginamos.
Pense nisso... Reflita também...

21 junho 2008

Dia dos Namorados em Atraso

Com um pouco de atraso, venho publicar este texto que surgiu de um desafio lançado pela grande amiga Lina, em celebração ao dia dos namorados. Ao fazer a versão masculina, Lininha me convidou a, com o devido paralelismo, criar a versão feminina para o texto. Cá está a reprodução caros amigos:

Prece pela Namorada Possível

Senhor, venho pedir uma namorada possível. Tudo bem, eu sei que sempre peço o mesmo ao Sr, seja em oração ou desespero, indo dormir ou na boate, mas acho que mereço né, Pai? Sou um homem fiel, que crê no desacreditado amor verdadeiro. Faço minhas obras sem esperar retorno dos beneficiados; não na profissão, mas no jeito de lidar com as pessoas, fazê-las sentirem-se melhor e amparadas. Me desfiz de toda idéia pré-formada, de todo pré-conceito e de todo ideário incurtido erroneamente em mim. Já até mudei minha posição inicial de “bonzinho”, que tanto elogiam mas igualmente repudiam as tais mulheres. Eu que tenho em mente a missão diária de fazer todos rirem não posso também estampar minha cara com sorrisos? Dôo a minha vida em prol dos necessitados, deixando de viver momentos pelos quais todos passam, e nada?! Sem querer questionar meu merecimento e meu crédito com o Sr, acho que estou merecendo sim!
Não uma namorada qualquer, achada num momento de solidão (em que qualquer uma serviria, e serviram!) mas uma menina nova, achada no meio de tantas outras, mas que do meio da multidão se destaque. Que emita uma luz brilhante, que ofusque mesmo a quem ousar desviar o olhar. Não quero uma deusa grega, porque Olimpiano não me fizeste. Quero uma bela moça, divinamente humana, humanamente divina. Que aceite ir ao cinema, de pronto, numa terça-feira depois da faculdade, se der vontade. Que divida um potão de sorvete comigo, seja creme da Kibon de morango da Häagen-Dasz, vendo um DVD, de House a Simpsons, comédia ou terror. Uma mulher que me tape os olhos ao me ver antes de eu vê-la, e me faça a surpresa como quem diz: “adivinha quem é?!”; que me tire de casa para passear sem planos feitos, seguindo pra onde quer que o vento nos leve.
Uma garota que dance! E dance melhor do que eu, mas que me ensine o necessário para acompanhá-la, e vê-la girar com a leveza de uma bailarina e o balanço de uma passista; que dance sem vergonha de que a vejam dançar, livre como uma ave, criando passos, por mais tolos que pareçam, mas que se divirta fazendo isso. E que não se prenda a um tipo só de música, mas adore a todos como eu, e que dance a todas também, sambando pra mim ou valsando comigo. Que ela me apresente a um mundo de coisas novas, me leve a descobrir a beleza de coisas menores do que as já admiro, e me mostre que na simplicidade das coisas é que habita a beleza. Que encha as minhas mãos de areia usando suas mãos na praia, e me empurre um canudinho de coco na boca dizendo “Prova!”. E que, então, levante meus óculos escuros e, colocando seus olhos nos meus, diga que está gostando do dia ao meu lado.

Uma mocinha delicada, não na vertente medo de bichinhos que voam, mas no jeito leve de ser. Que pegue a máquina fotográfica quando formos ao Jardim Botânico num dia de sol, e que se maravilhe como eu com o número de cores que a natureza cria. E que assim possa enxergar as possibilidades da pintura. Que faça uma tela comigo, se sujando como uma criança com as tintas espalhadas sobre a palheta. Que, não sabendo tocar nenhum instrumento musical como eu, se esforce pra tirar uma nota de um deles, e que vibre ao fazê-lo. E que não pense que ler quadrinhos é coisa de criança! Que jogue video-game comigo, e que eu sempre a deixe ganhar, só pra vê-la pular de alegria e me provocar depois, inclusive com beijinhos.
Que cozinhe, e comigo se suje e se limpe na cozinha, enquanto faço uma bella pizza numa sexta à noite... E que coma! Basta de mulheres movidas a saladinhas... que ela tope japonês, italiano, mexicano, português e americano...todo tipo de comida. Que ela faça doces incríveis, e que mesmo eu não gostando de doce, eu possa dizer “ficou incrível, como a doceira”. E que ao provar algo novo, por mais que ela não goste, olhe pra mim como quem vai começar a rir a qualquer momento. Ria... que ria muito! E não só ria de mim, mas que ria de si mesma ao me fazer rir. Que seja divertida, um quê de curiosa, e que faça aquela carinha que só meninas molecas podem fazer: rindo de leve, progressivamente, enquanto vão cerrando os olhos enquanto te observa. E que me olhe mantendo sempre no olhar o brilho que uma menina tem; o brilho apaixonante de quem vive um dia por vez, e faz uso dessas 24 horas como se foram suas últimas.
Que goste de poesia e literatura. Não uma expert em Drummond, ou que já tenha lido toda a obra de Dostoyevski, mas que possa comentar comigo o principal de livros mais conhecidos. Que não ache poesia coisa de frutinha, e que se sinta a maior das mulheres se eu recito pra ela a Lira XIII de Via Láctea, olhando fundo nos olhos. Uma mulher que vença os medos e bata de frente com os problemas, e que assim também me faça enfrentar os meus. Que me mantenha com os pés no chão, mas sempre sonhando acordado ao seu lado; que construamos castelos nas nuvens, mas fortes e sólidos como templos em homenagem aos amantes.
Uma mulher que saiba que a medicina me toma tempo. De preferência que viva isso também, porque só um médico entende outro médico. E que ao ser acordada no meio da noite por um dos celulares, pergunte: “Qual dos Drs eles querem?”. Lembrando: que não seja alta hein Sr! Não esqueça que fizeste teu filho pequenino, no que tange a altura...
Que tenha já pela manhã aquele cheiro doce das mulheres, e que, no meio do sono, com a cabeça repousada no meu peito, balbucie: “te amo”. E que grave na minha alma sua presença, pois ao ser eterno enquanto dure, se não for para sempre, que ao menos marque eternamente.
Amém.

Desculpem vosso autor se ficou longo, mas espero que gostem... Homenagem a uma bela princesinha dos cachinhos dourados, que me pediu que postasse este texto aqui.
Reflita Também...

07 junho 2008

Micro-Crônica : Cena 1

"Quando a gente percebe que uma mulher faz caretinhas...Fudeu,não é?!", e eu fiz que sim com a cabeça, ouvindo a reprodução da história diretamente do real interlocutor desta. Prossegui...ou melhor, deixei que prosseguissem.
"Vou chutar o balde,dane-se! Ela tem namorado,mas foda-se!!!Tem certas horas na vida que temos que torcer o errado em certo,não é?!"; mais uma vez concordei... um esboço de sorriso de canto de boca sobreveio... mas não era graça, non era allegro, non molto, era uma pontada de inveja. O desejo por ímpetos me consumia todos os dias, e mais me tocava frente os ímpetos alheios. Daria meu mundo por uma cara-de-pau, bezuntada em óleo-de-peroba, daquelas brilhosas e cheias de coragem.
"A eles e a nós happy Valentine's day!!!!". De acordo: a eles, felicidades mil. E que possam sorrir a alegria buscada por muitos, que se tornem plenos do frescor que é uma paixão recém-descoberta, que batam de frente com o mundo, se este ousar tentar impedir tudo o que farão juntos.
Ficam meus mais sinceros votos de alegrias infindáveis, cheias, amplas... completas.
Resto eu, a esperar. O mundo passa lá fora, e sou o mais atento dos observadores, exponenciando minha catarse, enquanto os namoros não acabam. Ou não começam.
........cortinas, pano rápido!

31 dezembro 2006

Luz perdida

A leitura de "A Última Crônica", de Fernando Sabino, me foi um marco. Foi com esta obra-mestra que descobri o mistério por trás do ofício de cronista, até então imaginado por mim como um complexo trabalho do homem sobre sua obrigação. Engano meu. Sabino sugere que, se lhe falta a inspiração para escrever, saia e observe o mundo a sua volta... "Leia" as pessoas...
Hoje eu alcancei esse nível. Consegui "ler" a dor de alguém e isso me tocou... E me culpo por não ter sido um problema dos já conhecidos, coisas que assolam um mundo desigual, mas um fato de simplicidade visível e que muitos ignorariam...
Deixava a casa de um amigo ao cair da noite. Ao chegar ao portão pude ver que havia uma festa numa casa próxima. E ao longe, na festa, enxerguei uma bela menina, ainda jovem. No mesmo instante realizei que era a moça com quem meu amigo já havia saído e com a qual nada mais queria, ainda que soubesse ser esta apaixonada por ele. A jovem veio em nossa direção e, percebendo isso, meu amigo virou o rosto. Ela não rumava a nós, mas passaria por onde estávamos... Ao chegar perto, lançou ao meu amigo um olhar como quem diz "olá" e esperando atenção, sem resposta, continuou a andar... Apenas eu a olhava... Cerca de cinco metros afrente, novamente ela se virou para nossa direção, tentando novamente estabelecer um, ainda que mínimo, contato com meu amigo, que novamente não ligou. Eu ouvia seus olhos clamarem "ei! não faça isso!" como quem sabe que a indiferença é a mais temível das tormentas. E ela seguiu seus passos. Eu já dava como findado o problema quando, para minha surpresa, vi, um pouco adiante, aquela linda menina virar-se pela última vez, esperançosamente, buscando para si um simples segundo dos tantos que sobravam ao meu amigo; mais uma vez sem sucesso. Eu vi a luz nos olhos daquela jovem se extingüirem naquele momento... Como a chama de uma vela abandonada ao vento da madrugada, sem que ninguém se importasse com a claridade que emitia.
A alta dramaticidade do momento, escondida pelas sombras da noite, invadiram o meu peito tal uma flecha endereçada aos que não se importam...Pela primeira vez na minha vida eu senti, não de maneira catártica como em livros ou filmes, mas como se ocorresse comigo mesmo, aguda e abruptamente, a dor daquela menina... Faltou-me o ar, abundante no meu entorno, mas ausente na minha reflexão, me deixando estagnado em pensamentos, e envolto em pesares...
E foi assim que aconteceu. Sem que eu esperasse... Apenas "lendo" aquela jovem, que só um olhar esperava...
Pense nisso...
Reflita também...
E um Ano de Luz para cada 1 de vocês, caros amigos...